O evento está incrível. Imagina, ouvir sobre desenvolvimento e contribuição diretamente de Alan Cox, ouvir o pai do PHP, Rasmus Lerdorf, tentar falar sobre Yahoo e outras coisas(ele diz que trabalha com tantas coisas mas não importa sobre o que ele tente falar, as pessoas só perguntam sobre php). As palestras estão excelentes, eu estava realmente precisando de um evento destes pra recuperar a motivação. Ir a eventos para encontrar os amigos, conhecer o pessoal, trocar idéias é muito legal. Mas tem uma hora que cansa, você quer ir a eventos que tenham palestras novas, idéias novas, pessoas que realmente saibam agregar conhecimento, não só discurso vazio e showzinho. Como disse a Fernanda Alves, em depoimento à NerdTV no FISL, citando Julio Neves, “isto aqui virou o Hopi Hari, a gente vem aqui pra encontrar os amigos”.
Assisti a uma palestra agora pela manhã de Andrew Cowie, um canadense com mãe não lembro de onde, que cresceu não lembro onde e mora na Austrália. A palestra chamava-se Inside/Outside, uma visão de quem está dentro ou fora do núcleo de desenvolvedores open source, ele é responsável por um projeto do Gnome, alguma coisa relacionada com Java. Como eu não uso nenhum dos dois, não lembro exatamente o que. Além de hilária, ele tem um jeito todo dele, divertido e descontraído de levar a apresentação, foi revitalizante ouvir as mesmas idéias que tanta gente pensa, poucos tem coragem de assumir e a maioria que é contra simplesmente não tem mais o que fazer. Preciso pegar os slides dele para relembrar tudo, mas o que eu lembro:
- Flamewars de 2 meses são inúteis. Enquanto alguns ficam discutindo se alguma coisa podia ou não ser feita, alguem simplesmente desiste de tanta conversa e faz. E chega com o produto pronto, enquanto os outros ficaram só no bla bla bla.
- Não assuma responsabilidades por coisas que você não vai cumprir. Se você fizer isto, está tirando a chance de pessoas que realmente gostariam de contribuir e fariam o trabalho que você se propos e não está fazendo.
- Ninguém pode lhe dizer o que você não pode fazer. As pessoas podem criticar, dizer que não vai dar certo, mas ninguem pode lhe impedir se você quer implementar alguma coisa.
- Você não pode exigir voluntariado, nem ficar chateado se as pessoas não se oferecerem. Cada um tem suas coisas para fazer, cada um tem sua vida, e a maioria das pessoas que se volutariam na verdade ja tem mais um monte de coisas para fazer.
- Ficar criticando toda iniciativa alheia é um pé no saco. Ser um garoto enchaqueca só ocupa tempo que você poderia estar contribuindo de verdade. Se não quer ajudar, pelo menos não atrapalhe.
- Stallman é um louco e só atrapalha. Ele estava contando de um episódio, em uma apresentação para um governo, onde depois de uma apresentação muito boa, sentaram-se a uma mesa para perguntas e respostas. E logo no começo, ele começou a gritar e fazer escândalo porque a tradutora tinha traduzido open source como open source, e não como “software libre”. Os representantes do governo simplesmente se levantaram e sairam andando, quem vai levar a sério algo assim? Ele já teve seu papel, muito obrigada, foi uma imensa contribuição, assim como tantas outras, mas por favor, nos deixe trabalhar.
- GNU my ass. Claro que a frase é minha, que eu ensinei pra Pia Smith e pro Eric Raymond, que gostaram muito do movimento GNU é o caralho em linguagem internacional. GNU/Linux é bullshit. Ele começou a mostrar os muitos outros software imensos responsáveis por centenas de milhares de linhas de codigos, milhares de desenvolvedores tão apaixonados e dedicados quanto quaisquer outros, que não fazem pirraça para aparecer junto com Linux. Como a Apache foundation, o projeto BSD que é muito mais antigo que a GNU, o KDE, Gnome, Mozilla, Perl, e o que ele chamou de a grande besta, OpenOffice, com o que, milhões de linhas de código.
- Ele agradeceu Intel, Google, Yahoo, Sun, o governo da India pelo patrocínio do evento(notem que apesar de o governo ser o principal patrocinador do evento, a grade é totalmente voltada para o publico técnico e aqueles que querem efetivamente contribuir). Mas perguntou “Onde está a RedHat? Onde está Novell? Eles tem centro de desenvolvimento aqui na Índia, eles empregam hackers aqui, porque não estão aqui no evento e não participam? Na Austrália é a mesma coisa, não conseguimos nenhum apoio deles”. Parece familiar…
Enfim, vocês imaginam como foi bom pra mim e como me senti revitalizada.
Mudando de assunto, parece que um grande problema aqui na Índia é tentar motivar o pessoal. Eles são excelentes programadores, mas isto é só um trabalho, deu 6hs, eles vão pra casa e esquecem. A maioria de nós encara isto muito mais como um estilo de vida do que apenas um trabalho, e isto vai ser um grande desafio para tornar a India um grande contribuidor, não apenas consumista de open source. O que eu posso dizer é que o evento está cumprindo seu papel motivador maravilhosamente bem. Muitas pessoas vem me perguntar coisas sobre “como motivar mais as pessoas no meu LUG, como motivar mais mulheres, como posso gerar negócios com isto, como posso justificar para meu chefe como implantar isto”.
Conversei com o Andrew, Rasmus sobre o fato de que o Brasil também é um grande consumidor, e não um grande contribuidor. Eles falaram coisas que eu também achava, so queria saber como viam de fora. Eles sabem que a educação escolar no Brasil é um problema, e também que a imensa maioria das pessoas precisa se preocupar com trabalho e como pagar as contas, enquanto ele pôde para um ano e meio para realizar um projeto que ele queria, sem se preocupar com isto.
Bom, por hora é isto, vou agora para um workshop do time do KDE, depois conto mais.